Volte a ser Solar!

– Você sabia que os finlandeses sofrem de depressão durante o inverno?

Ela fez que não com a cabeça.

– E nem é só pelo frio, sabia?

Apática, revirou os olhos.

– Tudo isso é pela ausência da luz do Sol. Como é que pode, né? Tudo por falta de luz…

Ainda apática.

– Também! Imagina? Dizem que tem uma cidade lá que só tem 56 minutos de luz. Cinquenta e seis!! Cara, eu não conseguiria… e você?

Deu de ombros.

– Aposto que também não conseguiria por muito tempo. Você é solar demais.

Ela olhou de volta. Confusa, franzindo a testa.

– Solar. É… você é solar. Lembro que a primeira vez que te vi você só sorriu pra mim. Não disse nada… só sorriu. Sabe quantas pessoas nessa vida tem essa sorte? Essa sorte de serem lembradas por um sorriso? Poucas, tenho certeza. É do seu sorriso que eu sempre lembro.

Deu um sorriso de canto de boca de milésimos de segundo. Balançou a cabeça em negação. Olhou pra longe.

– Caramba! Acredita em mim, vai?

Silêncio.

– Não sei o que houve… não sei onde é que você perdeu esse seu jeito solar. Não sei em que raio de gaveta, em que caixa, em que cômodo da sua casa, mas, pô, ele faz falta pra sua amiga aqui e isso tem que mudar.

Ela bufou.

– É o frio? É a escuridão daqui?

Silêncio.

– Você nem é finlandesa, cadê a brasileira? Cadê o sangue quente, mulher? Cadê… você?

Ela encarou a amiga.

– Olha, eu não vou embora sem antes você acreditar em mim que tem que voltar a ser solar. Tudo bem que tá frio, tudo bem que no verão é bem mais fácil, mas aqui não é a Finlândia e nosso outono também dá pra… suar, por exemplo.

Um riso escapou.

– Isso! Agora solta tudo!

Ela insistiu na apatia.

– Tá. Faremos assim. Não tem Sol aqui, obviamente, então, pega essa lanterna. Isso. Ligue. Segure ela bem firme. Essa lanterna é tão velha, mas tão velha, que você pode até queimar a mão depois de segurar ela acesa por muito tempo.

Ela arregalou os olhos.

– Tô brincando. Queimar, não. Mas esquenta a mão. Essa lanterna é o seu Sol agora. Só seu. A ausência da luz e, consequentemente, do calor, trás essa sensação de tristeza, desânimo, é natural… então segure isso por um tempo enquanto eu estiver fora, ok? Eu não demoro, prometo, mas quando eu voltar quero minha amiga solar de volta. Você aquece tudo isso aqui sozinha e você sabe disso… só precisa usar esse seu… “poderzinho especial”, não é assim que eles chamaram da última vez? Vaaaaai, por miiiiiim?!?

Ela sorriu sem mostrar os dentes.

A amiga sorriu de volta.

– Sorriso solar! Eba!!

Ela cobriu a boca. Olhou para os pés.

– Não faça isso! Não. Poxa… aposto que isso de cobrir o sorriso, lá na Finlândia, se não é pecado, deve ser crime!

O sorriso continuou por baixo das mãos, até que um som abafado de risada saiu. As mãos saíram. Ela alargou o sorriso e olhou para a amiga. Seus dentes surgiram.

– Isso. Solar. Sorriso solar! De orelha a orelha. Não o perca nunca mais. E mantenha essa luz da lanterna em você, seu cabelo parece que tá pegando fogo, é demais. Eu já venho, tchau.

Ela acompanhou com os olhos atentos a amiga sumir de vista. O sorriso não se fechou, mesmo depois que a amiga partiu e toda vez que a apatia brigava para aparecer era dessa amiga, da lanterna estranha e dos finlandeses que ela se lembrava.

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