Sinais

♪ Zero – Liniker ♪

Cena 5. Quarto. Noite. Escuridão.

Ela se apruma na cadeira e prepara sua velha máquina de escrever. Com as duas mãos deslizando nas pequenas alavancas, o texto vai aparecendo. Em zoom in, a câmera foca nas três primeiras palavras e, logo, o enquadramento vai se transformando em plano detalhe.

“Já são duas da manhã e minha cabeça, cheia de vinho, cheia de sono, prefere ficar pensando em você do que ir dormir, aqui, sozinha. A imagem de nós dois, descendo as escadas, encostando nossas mãos, uma na outra, não para de reprisar na minha retina. A gente mal se tocou, a gente mal se conhece, a gente mal fica junto, mas a faísca que sai de você me atinge em cheio e eu já não sei mais se é só tensão sexual ou se isso já é sentimento, se já é amor. Eu espero que não seja, de verdade, porque essa de “amar sozinha” não é pra mim. O problema é que eu já não consigo mais esconder. A eletricidade que você gera dentro do meu corpo é quase que incontrolável. Passa por dentro da minha roupa, passa pelas minhas veias, me arrebata, faz meu coração bombear mais sangue do que o normal, me esquenta, me dá arritmia. Você me olha e eu tenho vontade de te abraçar. Você me abraça, com afeto, mas com aquela distância de segurança e eu tenho vontade de passar meus braços pelo seu pescoço e demorar algumas horas pra te soltar. Você sorri pra mim e eu tenho vontade de dizer o quanto eu gosto de ver você feliz. Você faz uma piada com o meu cabelo e eu tenho vontade de flertar com você na mesma hora. O pior é que eu flerto, o pior é que eu já não escondo e isso me preocupa. O seu olhar é um sinal verde que solta faíscas e me impulsiona direto e reto em direção ao seu coração. Mas seu corpo é sinal amarelo, você se aproxima o quanto quer, mas me permite chegar só até certa distância, me permite te tocar só até uma certa duração de tempo. Já sua mente virou sinal vermelho, sua racionalidade te faz precisar ir embora, te faz ter compromissos, te faz ter sempre algo mais importante pra fazer do que perder minutos do seu dia jogando conversa fora comigo. Eu só queria que, um dia, você virasse semáforo em dia de falta de energia. Queria que você desligasse todos os seus sinais contraditórios e deixasse só o meu sinal verde, só o meu siga em frente te dizer que, cara, eu tô te querendo e não é pouco. Eu tô te querendo e essa faísca que você provoca em mim já virou chama que, agora, está me flambando de vontade, por dentro e por fora. O rubro do meu rosto segue por toda a minha pele. Minha pele quer a sua tanto, tanto. E minha mente já precisa da sua para a rotina valer a pena. Eu te quero tanto e eu só queria que você me deixasse te querer tanto assim, mas com todos os seus semáforos no sinal verde, livres, pronto para me deixar avançar. E meu corpo, aqui, cheio de vinho, cheio de sono, prefere ficar pensando em um jeito de ir aí, dormir com você, do que permanecer aqui sozinha. E já são três da manhã…”

 

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